Petrobras: CPI pode levar tiro no pé, dizem aliados de Jair Bolsonaro

Aliados do presidente Jair Bolsonaro (PL) acreditam que a estratégia de pedir a abertura de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar a atual gestão da Petrobras é arriscada, e pode funcionar como um “tiro no pé” e aumentar a desgaste do governo. .

Embora em guerra com a atual gestão da Petrobras, uma ala do centrão, grupo de partidos que faz parte da base aliada do governo, começou a questionar a proposta de Bolsonaro para o Congresso instalar uma CPI.

Vários são os argumentos: uma CPI teria pouco efeito prático sobre a principal necessidade do Planalto, que é conter o aumento do preço do diesel e da gasolina nas bombas; também pode se tornar uma plataforma para a oposição e se estender pelo período eleitoral – amplificando qualquer desgaste político.

A investigação, em um caso como esse, é política, lembram deputados e lideranças partidárias. Portanto, a oposição pode usar a comissão para atacar o presidente e suas ações diante do aumento dos preços dos combustíveis.

A maioria da diretoria da estatal que aprovou o reajuste recente foi indicada por Bolsonaro, que inclusive escolheu o atual presidente, José Mauro Coelho. Assim, dizem os expoentes do centrão, seria difícil, em uma CPI, o representante não ficar associado aos valores exorbitantes pagos pelos brasileiros nos postos.

Além disso, a CPI tem prazo de funcionamento de 120 dias, que pode ser prorrogado. Assim, a análise de documentos estatais e os depoimentos televisionados sobre a gestão da empresa aconteceriam durante a campanha.

Por fim, mesmo que Bolsonaro e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), consigam uma ampla maioria governista na CPI, os oposicionistas da comissão teriam acesso a documentos sensíveis da petroleira com potencial para prejudicar o Planalto, argumentam líderes.

A CPI tem o poder de determinar a realização de investigações, a obtenção de depoimentos, a solicitação de informações aos órgãos públicos e até mesmo a quebra de sigilo telefônico, bancário, fiscal e telemático dos investigados.

PT defende CPI

Logo após Bolsonaro lançar a ideia, líderes de partidos de esquerda se posicionaram a favor da CPI.

Integrante da campanha de Lula, o ex-governador do Piauí, Wellington Dias (PT), defende a instalação da comissão de inquérito. “Uma investigação séria sobre a Petrobras, focada na política de preços dos combustíveis, facilmente revelará que o presidente da República nunca quis uma solução para reduzir os preços dos combustíveis”, disse ele ao Sheet .

Não por acaso, no pacote proposto por Lira para retaliar a Petrobras, a CPI é o item que mais levanta dúvidas entre integrantes de partidos como PL, PP e Republicanos, que apoiam Bolsonaro.

Lira convocou uma reunião de lideranças para esta segunda-feira (20), com o objetivo de discutir uma reação coordenada dos parlamentares contra o reajuste.

Outras ideias de Lira, que têm apoio no centro, incluem aumentar o imposto de renda da Petrobras, rever a política de preços da estatal e taxar as exportações de petróleo.

Em artigo publicado na Folha deste domingo (19), Lira escreveu: “Não queremos confronto, não queremos intervenção. Queremos apenas respeito da Petrobras ao povo brasileiro. Se a empresa decidir enfrentar o Brasil, deve se preparar: o Brasil enfrentará a Petrobras. uma ameaça. É um encontro com a verdade.”

Na opinião dos deputados ouvidos em privado, a proposta de alterar a tributação da empresa para angariar fundos para serem utilizados como subsídios à gasolina e ao gasóleo são mais frutuosas e eficientes.

A Petrobras anunciou, nesta sexta-feira (17), reajustes de 5,2% no preço da gasolina e de 14,2% no preço do diesel, alegando que o mercado de petróleo passou por mudança estrutural e que é preciso buscar convergência com os preços internacionais.

O anúncio enfureceu Bolsonaro e aliados. Liderados por Lira, eles prometeram retaliar a direção da Petrobras. O principal alvo é o presidente José Mauro, que já foi demitido publicamente pelo Planalto, mas que resiste em deixar o cargo.

Parlamentares, que já reclamavam da política de preços da Petrobras, começaram a pressionar ainda mais José Mauro a renunciar. Isso abriria caminho para uma mudança mais acelerada no comando da petroleira.

Nos bastidores, líderes do governo dizem que, em caso de demissão ou mudança de comando da empresa, o pacote de retaliação deve ser amenizado. Mas é improvável que engavetem todas as medidas sugeridas por Lira.

Questionado, o líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR), diz que a decisão de abrir a CPI será tomada pelos líderes da Câmara.

Barros ressalta que, caso a comissão seja instalada, é possível que o governo tenha poder sobre a direção da investigação. “Estará sempre sob controle”, avaliou.

Deputados da ala ideológica se alinharam com Bolsonaro e defenderam a abertura da CPI.

A deputada Carla Zambelli (PL-SP) informou neste domingo (19) que vai pedir à Polícia Federal e ao Ministério Público que apurem o lucro da estatal e a reserva orçamentária para distribuição de dividendos pela empresa.

 

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